sábado, 8 de setembro de 2012

Um ser forte



Achava-me numa tarde mansa sentada na cadeira e com vento, contemplando as nuvens e a pobreza de imaginação, a meditar, enquanto encarava o voo das borboletas, livres, sobre o estranho movimento de existência e devaneios que habitava diante de mim, quando senti o toque humano... Virei-me e deparei-me com um ser sem presença. Não nos falamos. Passaram-se alguns instantes, de modo que me enchi de medo daquele encontro indesejado. As mãos suaram cordialmente. Seríamos amigos? Gostei dele pelo perfume, imensamente. Era tão sensível seu tocar, tão comunicativo ao olhar do vento, tão simples em movimento. Compreendo que somos sujeitos de mundos, se não falasse a verdade entenderia, mas acho que, na realidade, gostava da minha fraqueza na certeza de alguma coisa. Mudei, por isso. Comecei a ficar inquieto perturbado... Senti aquele mundo moderno, pois o vento, o toque, o perfume voava com aquela borboleta, me fazendo acreditar na dúvida e perguntar se ainda é possível. A fortaleza está na busca das respostas.

domingo, 2 de setembro de 2012

Cartas d’amor ao amante



Meu querido,

Ontem, na casa vossa, quando passei, levando comigo o sorriso nosso, estava sentado, conversando com alguém, não gostei, sem apresentações. Por debaixo do retrato perto da escrivaninha, um homem alto, moreno claro, sorriso de lado, que me seduziu logo, talvez por me impressionar de cara limpa, apesar de tão espalhafatoso no sofá, uma graça de jogador, grave rápida e envolvente de um deus, não do Olímpio, mas desse Mundo. Bem diferente dos homens comuns, que se acham uma raça esplêndida tesuda e carnuda! Ah!

Quem era? Seu amigo? Suponho que um daqueles velhos amigos de tempos remotos já se sabe. Ele parece galã de cinema, de algum castelo em silêncio solteiro em busca da mulher encontrada: EU! Claro, porque não me lembro de Ter encontrado outra mulher de cabelos e cabeça tão fabulosos ao raiar o brilho dos olhos no sol, de janeiro a janeiro, até dezembro acabar – nem de colo tão provocativo, angélico como lírio e de coração tão à espera de um gentleman. Admirei-o com aquele fervor adolescente, onde reina todo aquele escândalo juvenil. O tórax era perfeito, os ombros largos, braços de abraço; e o olhar, quando baixava parecia pedir para ir lá. Deu-me a impressão de me querer ali do começo meio e fim, se é que finda. Dirá meu padrinho: “Como pode detalhar uma pessoa ao passar vista por um porta-retrato?”. É que voltei à vista e fiquei a observar cada movimento em silêncio.

Por que não pedi uma breve (longa!) apresentação? Talvez porque não fosse o momento, talvez porque quisesse mais, talvez o recinto não pedisse. Sabe o que dava tanta sedução nos tempos de menina? Sabe! Não ter os lugares do seu pensamento... Pois era a imensidade de coisas, pessoas e falta de emoção, é, talvez. O fato é que depois da troca de olhares meus, voltei a minha vida solteira à sua espera. Não há senão uma mulher, entre todas, que mais fino se tenha um desejo por homem, que este não se deixe possuir para eterna perturbação do mundo. Talvez, se eu tivesse realmente necessitada, dessa espera de gozo masculino, me propusesse tal apresentação. É com estes elementos alegres, que vivemos mais, entretanto temos que restaurar nosso império de grito feminino. Daquela mulher humilde e devota, procurando alguém...