quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Um lado do retrato



Sou morena e gordinha, mas não como qualquer brasileira, como me parece qualquer uma, e também não sou do Oriente, mesmo amando esse lado, entretanto sou meio asiática na minha morenez, sou meio índia, sou mais Lispector, qualquer espécie. Meu pequeno ser foi gerado ainda sem dono, no abandono, gasto nos invernos tentando caminhar a busca de um porto que fosse capaz de me afagar; tivesse nascido sem rumo como as rendas escarlates dos lugares indesejados pela luz e pureza; tivesse menos doença nesse coração delicado, cheio de saudade, provocado pelos olhos dos entardecer, envoltos pela penumbra das coisas viventes sem cor, sem gesto, sem fantasia de ser. O cheiro, o óculos, o espelho, o romance antigo encapam as paixões impossíveis, enquanto apontam minhas insônias frágeis, por falta de carícias herdadas de solicitude. Busco o prazer dos lugares, pousado nos objetos com donos cortados por vidros, por vezes entre lentes de gentes fadadas, fanadas, embaraçadas de olhos doentes, identifico, cheios de bem querer. De outros assim, de desejos, pouco sei, minha vida é de busca diária, limitada no retrato empoeirado que persiste em se perder. Até o momento que se julga exato muito sem tem a aprender, ainda não sei o tamanho do caminho que tenho que a percorrer para plantar minha semente de árvore, cada vez mais exausta, das dores que perpassa para nascer. Prefiro o mundo desmundo, os cheiros apegados, o carinho a devaneio procura da essência de se ter. Sangro pela incerteza das horas enlaçadas nos momentos sem intimidade, até agora sem rumo. Percebo que me ofereço em perigos; sou quieta como se cai à folha dos galhos, sou violeta nas tardes sem cor, sou a demora do pôr-do-sol esquecida entre olhares, sou as paginas de um livro sem leitura, estas gastas de falta de cuidado, de choro, de vontade de se continuar. Já refleti os cacos do tempo, já pensei nos achados guardados, disfarçados de remendos e nada é suficiente para se viver; já banquei a boazinha pra agradar o desagrado, já bebi chá para me fortalecer, já tive uma vida frágil regado pelas gotas de toque de meu bem querer. Temo o descontrole, os limites do insucesso, o absoluto inexistente, o sangue coagulado sem mais nada pra fazer. Recebo elogios em troca de sorrisos, vejo meus braços sendo afagos num abraço, tudo impecável como deve ser. Existo mais assim, não pela falta, mas pela presença. Desde então, ando me conhecendo, me afagando, me aceitando e nem sei bem porque, por quê?
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Ah! Não sou tão morena e gordinha como dizem sem me ver, ando me costurando nos lugares que me gastam sem doer; tenho, como quem vive, esperado o outro lado do meu lado do porta retrato empoeirado. 

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