terça-feira, 25 de novembro de 2014

Os dias com vovô se foram



- Lailsa sempre me pedia um chá de “martelão”, dizia vovô. E, eu a ele: - Vô, faz um chá de “martelão” pra mim? Ele sorria pra mim e eu pra ele, e foi sempre assim.

Ele me ensinou a viver os dias com simplicidade, com aquele olhar de bondade sobre as coisas. As palavras honestas, tão sábias e cheias de carinho no olhar. Eu não sabia direito o que significava, mas acreditava porque era o meu avô que dizia. Meu avô era, é e foi meu pai.

No nosso último encontro desta existência, ele me disse: - Minha filha, aproveite a vida enquanto é jovem. Viva, estude! E, ao nos despedir, disse-me: - Sonhei com sua avó me chamando, eu disse que estava indo. Deitou, puxou o lençol aos olhos e dormiu. Fiquei pensativa, cobri ele e disse: - Até logo, vovô. Beijei aquela carequinha tão cheirosa de poucos cabelos já grisalhos pelo tempo, pela sapiência.

Não imaginava sua partida, não acreditei em sua despedida. Ele sempre se mostrava tão forte, tão completo, tão “homem da casa” (como dizia vovó). Mas a passagem é um lugar comum a todos. Nos meus momentos de lucidez entendi sua ida. Na realidade, tudo era diferente. Ele não acordaria, não me daria os bons da infância, não sorriria com os olhos, não me colocaria no colo, não me chamaria de “forte” ao invés de dizer que estava gordinha, não me chamaria para fazer compras na D. Mazé, não faria meu chá de “martelão”... coisas simples, coisas dele, coisas nossas.

Vô, obrigada! Sei que você foi se encontrar com sua flor, com minha avó, com o nosso amor. Sentir você gelado foi estranho, mas os caminhos trilham o além... Então, até o reencontro!


- Ah, vô, choveu!!! Disseram-me que você tem a alma boa. Na verdade, sempre soube. Não tomei o chá de hortelã, afinal você não estava aqui para fazer e me ninar. 

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